Abstract
Este artigo visa investigar a imbricação entre ideal e material a partir de formulação do antropólogo francês Maurice Godelier, em diálogo com Marx. O problema formulado é: dado o contexto da pandemia mundial da Covid-19, com ênfase na especificidade brasileira, como pensar os problemas que vivemos atravessados pelas “realidades ideais” forjadas no capitalismo e, mais especificamente, no capitalismo brasileiro? O objetivo é formular algumas proposições conceituais que, articuladas, definam a própria condição central do capitalismo, referidas posteriormente ao caso atual. A investigação é de natureza filosófica, pensada, no sentido de Frédéric Cossutta, como “reexame e definição do conceito”, tendo como “referência” a própria pandemia. Os resultados apresentados mostram que as “idealidades” principais atribuídas ao capitalismo - o individualismo, o nacionalismo, a primazia do dinheiro, o ideal de multiplicação permanente do valor e um modo particular e dinâmico de perfazer divisões de grupos sociais – operam conjuntamente nas reações apresentadas, nas exigências de “volta à normalidade” e nas desigualdades a elas associadas. O artigo conclui com uma reflexão inicial sobre os desafios para a reversão de um quadro dessa ordem, rejeitando formulações idealistas - como certa ideia de “conscientização” eventualmente sugere -, mas também formulações mecanicamente materialistas – como pode sugerir certo modelo de revolução a partir de um ato “acima da sociedade”.